Comunicação Não Violenta e seu potencial de melhorar diálogos e relações (Parte 1)

Raylla é psicóloga e atuou na área de pessoas por 10 anos até encontrar a CNV e tornar-se consultora e disseminadora dessa metodologia por diversas organizações e instituições educacionais, como FIA e Esalq.
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Uma das perguntas mais corriqueiras do cotidiano em diversos idiomas, culturas e países é a famosa: “Como você está?”, porém raramente ela é questionada com a real intenção de ouvir a resposta sincera do outro. Existe uma espécie de “norma social” que nos ensina que devemos responder algo como “Tudo bem, e você?”, sem realmente reconhecer e observar qual meu estado interno naquele momento. 

Há várias razões para isso, como: falta de tempo para se engajar nessa conversa, falta de habilidade para lidar com uma resposta desconfortável ou até mesmo falta de familiaridade com ou consciência sobre meu estado emocional do momento. E essa autoconsciência é um grande aliado e um recurso essencial no desenvolvimento de inteligência emocional e construção de relações mais harmoniosas e saudáveis. Quanto mais clareza temos a respeito do nosso estado emocional em um dado momento e, principalmente, dos fatores que o influenciam ou, como falamos na Comunicação Não Violenta (CNV), das necessidades humanas universais que estão causando aqueles sentimentos, melhores condições teremos de saber o que pode tornar nossa vida melhor e, assim, assumirmos mais responsabilidade por nossas escolhas e termos maior protagonismo na vida.

Podemos também ter esse olhar atento ao outro, tentando compreender como ele está, como ele se sente e quais necessidades estão vivas nele. Esse processo não tem nada a ver com sermos psicoterapeutas uns dos outros nem sermos paternalistas, mas sim em sermos conscientes dos fatores que influenciam as nossas vidas e decisões, principalmente os sentimentos e as necessidades humanas. Pensemos em um exemplo mais cotidiano da vida pessoal ou profissional quando alguém fala algo para nós sobre um tema difícil e termina fazendo um pedido com o qual não estamos confortáveis. Há duas atitudes comuns quando estamos nessa situação de desconforto ou receio diante de um pedido:

1. Tendo a dizer “sim”, ainda que minha verdade mais profunda fosse “não”, e me coloco como “bonzinho/boazinha” na situação, descuidando de mim na tentativa de cuidar do outro (falta autenticidade/honestidade).

2.Tendo a dizer “não” para já defender meu ponto de vista e me coloco, em geral de forma reativa e mesmo inconsciente, como “agressivo(a)”, falando minha verdade de modo incisivo e termino por descuidar do outro nessa tentativa de cuidar apenas de mim mesmo (falta empatia).

Porém não precisamos ficar presos a apenas essas duas reações automáticas. Uma pessoa que está em contato com seu mundo interno, querendo cuidar de si (o que chamamos na CNV de autenticidade), e ao mesmo tempo disposta a compreender o mundo do seu interlocutor, querendo considerar também o que é importante para outro (o que chamamos na CNV de empatia), confia que, juntos, podem cocriar soluções ganha-ganha, que cuidem o melhor possível de todos os envolvidos. Esses são dois pilares fundamentais da CNV, mas vamos definir melhor o que é essa palavra que vem se tornando cada vez mais conhecida em todo o mundo.

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O que é a CNV?

A Comunicação Não Violenta (CNV) pode ser definida como um jeito de compreender o ser humano e suas motivações mais profundas, seus sentimentos e formas de lidar com eles, bem como o que está por trás deles, que são as necessidades humanas universais, como: sustento, segurança, amor, empatia, descontração, comunidade/ pertencimento, criatividade, autonomia/liberdade, sentido, equilíbrio/reciprocidade e contribuição, dentre outras. 

Podemos notar que quando temos necessidades atendidas experimentamos sentimentos confortáveis e temos vontade de celebrar e quando elas ficam desatendidas temos sentimentos desconfortáveis, que nos causam dor e pedem por ação na tentativa de atendê-las. Vale dizer que tais necessidades são aqueles valores atemporais (ex.: valorização) e não os desejos passageiros ou estratégias que podemos ter para preencher alguma necessidade (ex.: querer elogio de um colega de trabalho).

A CNV investiga perguntas como: o que é violência? O que é conflito? É possível cuidar de mim e dos outros ao mesmo tempo? Se sim, como? Como desenvolver a empatia e melhorar a qualidade da minha escuta e presença com os outros? Como desenvolver minha habilidade de expressar o que está acontecendo dentro de mim de forma clara e que diminua as chances de ferir o outro? Como parar de engolir sapo e conseguir me expressar sem gerar resistência no outro? Como iniciar e manter bons diálogos e, assim, construir relações sólidas? 

Ela é um conjunto de princípios filosóficos e práticas concretas que contribuem para a criação de melhores relações intrapessoais, interpessoais e sistêmicas através de diálogos de alta qualidade e com base em 2 pilares: autenticidade e empatia, ou seja, disposição para se mostrar verdadeiramente/se vulnerabilizar para se fazer compreendido e interesse genuíno em compreender o outro (seus sentimentos e necessidades), mesmo quando discordo de seu comportamento ou estratégia adotada na tentativa de atender necessidades.

Para vivermos os princípios da CNV no dia a dia somos convidados a uma mudança de postura diante da vida, substituindo cada vez mais os julgamentos ou estereótipos e as visões de certo e errado ou culpado por uma real vontade de compreender o que se passa comigo e com o outro, mesmo numa situação de conflito para, depois de termos essa compreensão mútua, podermos dialogar e cocriar soluções criativas e sustentáveis para todos os envolvidos. 

Alguns benefícios da CNV 

  • Desenvolvimento da habilidade de escuta empática de forma a abrir-se ao diálogo com curiosidade (“o que o outro está sentindo e precisando agora?”) e lidar melhor com divergências ou conflitos;
  • Autogerenciamento em situações com emoções fortes (“o que estou sentindo e precisando agora?”) e segurança e protagonismo na ação (“como escolho agir agora ao invés de reagir?”);
  • Criação de um clima de cooperação e aproveitamento das diferenças para um resultado melhor, que leve em consideração as necessidades de todos (ganha-ganha), gerando maior humanização nas relações e melhores resultados;
  • Mais habilidade para fazer combinados claros e efetivos, zelando pelos limites de cada um e expressando o “não” quando importante, porém, com respeito e consideração por todos.

Qual a base da CNV

O criador principal dos fundamentos da CNV foi o psicólogo norte-americano Dr. Marshall Rosenberg e muitos dos seus livros já estão traduzidos para o português, podendo ser encontrados na bibliografia a seguir. 

Tendo crescido em um bairro turbulento de Detroit, ele se interessou por novas formas de comunicação para criar alternativas pacíficas de diálogo que amenizassem o clima de violência com o qual conviveu. 

Comunicação Não Violenta foi o resultado de sua especialização em psicologia social, de seus estudos de religião comparada e de suas vivências pessoais com mediação de graves conflitos pelo mundo. 

Em 1984, o Dr. Rosenberg fundou, na Califórnia, o “Center for Nonviolent Communication” (CNVC), que se transformou em uma grande organização internacional sem fins lucrativos, com centenas de pessoas habilitadas a dar treinamento em mais de trinta países, entre eles o Brasil. Seu livro tornou-se um best-seller internacional. 

Sintetizando...

Neste artigo falamos do que é a CNV de forma geral, suas origens e possíveis benefícios. No segundo artigo daremos mais detalhes sobre a autenticidade, seus elementos essenciais e como desenvolvê-la. No terceiro artigo trataremos o tema da empatia, o que é e o que não é empatia, quais são seus obstáculos e como desenvolvê-la também. No quarto artigo contaremos como temos aplicado esses conceitos no dia a dia da liderança da Gupy. Fique ligado!

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